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| Zakros - seg 29/mai/17 (111 fotos) | Mais fotos: | Álbum | Slide show | Vídeos |
Acordei várias vezes durante a madrugada, provavelmente devido à ansiedade do deslocamento rodoviário próximo. As estrelas me tranquilizaram, mesmo não confiando totalmente na qualidade do clima durante o resto do dia. Levantei definitivamente às 5:30 h e segui o curto percurso até o terminal de ônibus, onde cheguei 15 minutos antes da saída das 6:00 h. O céu começava a clarear e o ar estava bem gelado, mas dentro da estação pude aguentar sem lançar mão das toalhas. O trajeto até Zakros (leia zácros) tinha 35 quilômetros e imaginava completar a rota em uma hora. Estava torcendo para haver algum tipo de aquecimento dentro do veículo porém não tinha nada. Tentei me manter encolhido por
preguiça de tirar algo da mochila. A estrada era cheia de curvas e passou por uma cidade que devo visitar em breve. Pouco antes das 7:00 h o motorista parou na praça central, onde passei alguns minutos estudando as opções. O objetivo principal da vinda para Zakros era fazer a primeira caminhada em desfiladeiro na ilha. Creta conta com um grande número de passeios desse gênero devido à topografia bastante irregular. Eles são mais comuns na costa sul, banhada pelo Mar da Líbia, que é muito mais acidentada. A cidade fica no interior e um desses canyons tem início nas proximidades da vila e se estende por pouco mais de quatro quilômetros em direção ao mar. O trecho inicial de dois quilômet
ros, antes da entrada do parque, ainda seguia por estradas asfaltadas até surgir o desvio para a trilha que acompanha um pequeno córrego pouco caudaloso nessa época que deveria ser seca. O Desfiladeiro dos Mortos é assim chamado em razão das diversas tumbas escavadas nos penhascos há mais de três mil anos. O sol fraco estava escondido por uma nuvem e quando ele conseguiu se desvencilhar pude sentir um leve mormaço que serviu de sustentação ao ânimo. O caminho constitui o trecho final da longa trilha europeia que tem início em Portugal e atravessa a ilha de Creta de um extremo ao outro. Depois de passar por uma porteira a vereda de terra iniciava a descida e começava a acompanhar o ribei
rão que se arrastava lentamente pelas pedras. Apesar da ótima sinalização fiquei em dúvida em alguns pontos, porém logo surgia o borrão vermelho pintado em alguma rocha que indicava o percurso correto. A descida ia de 170 metros de altitude até o nível do mar e consistia principalmente de estreitas faixas de terra e, algumas vezes, de rochedos empilhados. Alguns pedaços eram de mais difícil transposição devido ao acúmulo de vegetação ou à irregularidade das pedras. Os paredões rochosos que limitavam as laterais do desfiladeiro formavam uma paisagem maravilhosa e não permitiam muita dúvida quanto à direção a seguir. Qualquer desvio do centro era impedido pela inclinação dos imensos penha
scos. Ao final do percurso surgiu o Palácio Minóico que, junto com vários outros do mesmo tipo, demonstra a capacidade e desenvolvimento daquele povo. A maior parte dos vestígios diz respeito ao período que vai de 1.700 a 1.450 a.C, data em que a civilização teve um final repentino. Entrei no sitio arqueológico às 9:30 h, depois de duas horas na trilha. A riqueza de Kato Zakros era proporcionada pelo intenso comércio marítimo com as potências da orla do Mediterrâneo, especialmente o Egito faraônico. Segui o passeio para conhecer o litoral, com duas pequenas praias. Havia planejado passar duas horas aproveitando o sol, mas ao olhar para o céu percebi que seria mais prudente voltar logo p
ara Zakros, antes de ser surpreendido pela chuva anunciada por nuvens pesadas e escuras que circulavam no topo das montanhas. Resolvi subir pela estrada antiga que liga as duas Zakros em vez de pegar a rodovia nova e asfaltada mais longa ou mesmo voltar pelo desfiladeiro mais uma vez. O trecho era bastante inclinado e misturava partes de terra e de cimento. Não deu tempo de subir muito e as nuvens me alcançaram com força. No começo consegui me abrigar sob uma árvore espinhosa solitária, que até que forneceu proteção razoável. Contudo a chuva resolveu apertar bastante e a única alternativa foi me molhar. Mas não foi uma molhadinha qualquer. Tive que caminhar por uma hora e meia sob uma t
empestade torrencial, sem possibilidade de encontrar abrigo. Depois da subida a via seguia ao longo da borda do desfiladeiro e oferecia vistas espetaculares que eu não pude aproveitar porque nem conseguia tirar os olhos das cachoeiras que se formavam no solo. A única proteção que pude providenciar foi usar uma toalha para cobrir a cabeça e parte da mochila. Cheguei à cidade encharcado e ao torcer minha cobertura tinha impressão de que ela estava saindo de um tanque cheio de água. O frio também incomodou e fiquei tiritando pelas três horas seguintes até a partida do ônibus. Logo que terminei a subida consegui me aquecer e secar um pouco sob o breve período em que o sol se mostrou antes d
o segundo dilúvio. Entrei na varanda de uma construção abandonada, bem na frente da parada do ônibus e, enquanto aguardava, um temporal mais severo ainda desabou por outras duas horas sem parar. Alguns minutos antes de o transporte chegar mais pingos começaram a cair e me molhei novamente enquanto aguardava a abordagem das pessoas na minha frente. A história se repetiu quando parei na estação de Sitia. Pretendia ir ao supermercado próximo e precisei esperar 20 minutos para a nova chuva reduzir. Ao sair da loja o céu já estava limpando. A primeira providência ao entrar no quarto foi verificar as condições do tempo para amanhã e aparentemente a fase molhada está chegando ao fim. A confirmar.